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18 de mai. de 2015

#HistoriaComSabor: Devorando palavras em Colombiano








Contar esta história seria impossível sem ouvir Alejandro e Shakira (TchaKira ou Chaquirua), porque ela tem sotaque, ela tem o "como se fala", ela tem ritmo. E Aprendi a gostar deste som por influência de uma menina colombiana. Contar esta história é falar de língua, de sua função gustativa e de comunicação. Comer é uma forma de devorar palavras. E devorar palavras é um modo de saborear o mundo.

E foi assim, depois de uma derrota inacreditável que tirou o Brasil da Copa do Mundo de 2010, que um garotinho apareceu na televisão chorando e proferindo palavras de tristeza. E naquele momento, Lucia Salamanca percebeu que gostaria de falar português para entendê-lo,  entendeu que gostaria de provar aquele sabor carregado de dor e Brasil. A degustação se deu ainda na faculdade da Colômbia. E a cada letra que provava da brasilidade, mais perto ela estava de descobrir uma mistura agridoce que o Brasil tem.

E buscando provar o que significava um vasto vocábulo que ia da palavra saudades até o aroma da liberdade, ela desembarcou em terras tupiniquins para ensinar o paladar do inglês para comunidades no Capão Redondo. Um visto de entrada no país com duração certa e um sabor de buscar aquilo que ainda não tinha nome, a cada dia que passava por aqui, Luci acrescentava ao seu grande conhecimento linguístico um amor pelo Brasil que dava a ela o significado de ser o que realmente era.

Há quem deixe sua terra natal por conta de guerras, por problemas financeiros, para estudar, trabalhar... Lucia estava deixando uma vida de conforto para se deparar com o desconhecido que a ajudaria a se encontrar, a revelar realmente quem era ela. E isso se deu aqui, no balanço do transporte público, no arroz com feijão cotidiano, em um envolvimento social que abriria portas para tantas pessoas neste mundo e um portão inteiro para que ela fosse feliz.

No dia em que a passagem de volta à Colômbia estava marcada, Salamanca acordou com aquele gosto amargo da despedida e ao som do despertador. Olhou para as malas e para seu futuro... e decidiu despertar para  o segundo. Ela não pegou aquele avião, preparou foi uma xícara com café.

E foi neste assunto de acordar, se encontrar e saudades que ela foi preparando para mim Arepas, uma das coisas que para ela tem mais gosto de Colômbia. Arepas de saudades, prato  que é a especialidade de seu pai e tradição no café da manhã colombiano. E o pai ainda preparava as arepas para ela com recheio especial, do jeito que gosta, da forma que decifra sabores e personalidade.

E este prato especial de farinha de milho e recheio diverso é a tradução do sotaque dela. Da Lucia que morou em um hostel e conheceu gente do mundo todo, da menina colombiana que eu conheci num bar de salsa, da designer que preparou meu convite de aniversário e participou da minha festa como o primeiro aniversário brasileiro em que esteve. Lucia, de uma inteligência encantadora e de histórias ímpares.Alguém especial por se assumir quem é, por ter vontade e provar todos os sabores da vida e os dialetos que eles trazem. Ela não se arrepende nem de uma caloria ou um acento a mais.

Dizer que aquelas arepas ganharam um significado pessoal além de um sabor incrível é um pleonasmo. Falar que abandonar todo o conforto para se assumir senhora do próprio destino é só para quem tem coragem de abocanhar a vida e aproveitar cada pedacinho dela é uma redundância. Falar de Lucia Salamanca é devorar o não-convencional em forma de amizade.

Hoje é seu aniversário e decidi contar sua história fazendo desta receita de arepas, amizade, coragem e destino um bolo enorme de palavras e afeto. 

Para Lucia Salamanca, um desejo de felicidade.

Receita

Arepas de Saudade de Lucia Salamanca








- Ingredientes

Massa

60g de Manteiga
700 ml de água
500g de farinha de milho

Recheio 

Frango desfiado temperado com coentro, manjericão, cebola, tomate, sal e azeite

Preparo

Massa

Ferva a água e acrescente a manteiga e o sal. Depois de dissolvido, misturar à farinha de milho e sovar. Após a mistura ficar homogênea, deixe a massa crescer. Com o crescimento, divida a massa em discos e coloque na frigideira até ficarem dourados e crocantes. Faça aberturas nos discos para acrescentar o recheio.

Recheio

Cozinhe o peito do frango. Finalizada esta etapa, desfie o frango e leve-o à frigideira. acrescente os temperos, os legumes e o azeite. Ponto a gosto. 







27 de abr. de 2015

#HistóriaComSabor: Esperança à moda síria

Quando eu pensei em criar o projeto "História com sabor" sabia em qual panela estava botando minha colher. Um sabor pode mudar vidas inspirando, trazendo lembranças boas ou saudades infinitas. Mesmo assim, alguns amigos toparam o desafio de prepararem receitas que marcaram suas vidas. Muitos com um brilho no olhar, outros apreensivos. Não é fácil recriar os gostos que a vida nos fez provar.

Para abrir as portas deste nosso bistot virtual, eu escolhi uma história que me enche de afeto e de esperança. Por isso, peço a todos que escolham suas mesas, já pensem no que preferem beber e bom apetite!


                                                   



Talal Al-Tinawi e Ghazal Baranbo estavam atrás de um balcão vendendo seus pratos sírios quando os conheci. Naquele momento, eu decidi deixar meu crachá do Sesc na bolsa e ser apenas Nathalia. Era um evento organizado pela ADUS, um instituto que trabalha pela reintegração de refugiados no Brasil e, como estou me dedicando a esta missão, quis o universo que eles fossem os primeiros refugiados que eu conhecesse. E que sorte a minha.

O casal havia virado a noite preparando os quitutes, os sucos que fizeram questão que fossem naturais, os doces com sabor de casa. E lá fui eu, me deliciar com a minha escolha de um mix sírio. Como boa apreciadora do sabor mundial, posso lhe garantir uma coisa: aquele prato era especial. Você pode pensar que eu esteja exagerando, mas lhe digo que é perfeitamente possível sentir afeto em uma comida. E foi o que aconteceu.

Não sei a receita secreta e, pra falar a verdade desmistificando temperos, o segredo de algo que você prova e percebe que é especial não se compra. Este ingrediente secreto é oferecido. Deve ser por isso que na cultura síria comemos com as mãos, detalhe este que pra mim faz toda a diferença. Provei o kibe mais sequinho e harmonioso que a mim já foi oferecido. Naquele momento, realizei que ali, naquela explosão de sabor, tinha uma bonita história. E Talal me contou dias depois.




Eu fui até a casa da família que fica no Brás e  recebida pela linda Yara, garota de 10 anos, filha do casal. No momento em que Talal nos deixou para fazer suas orações, a pequena síria quis me mostrar seu caderno. E num daqueles instantes em que a poesia bate à porta, ela disse que queria ler pra mim algo que tinha escrito em português. Quando começou com "O que é, o que é?", pensei que estivéssemos em um jogo, mas ilusão a minha. "Viver e não ter a vergonha de ser feliz!!!!!!", eu a interrompi. E expliquei que era uma música de Gonzaguinha . E a menina pediu para que eu cantasse. Enquanto o pai rezava, entoávamos um canto pela vida comendo chocolates.

Quando Talal voltou, nosso show tinha terminado e dele só haviam ficado sorrisos. E foi neste espírito que o segundo sabor marcante da nossa história chegou. Um café árabe preparado com tanto cuidado significava que eles já tinham aprendido como receber amigos aqui no Brasil. O meu, sem açúcar, veio para compor o cardápio que me aguardava. Quando pedi para que ele me contasse sua história, o sírio foi buscar um papel com ela descrita. Já tinha adiantado esta parte para todos os meios de comunicação e estudantes que o entrevistavam. Mas esta não era uma entrevista, era nossa conversa. Quis a vida que ele não encontrasse nenhuma cópia. E eu celebrei, pois contei que queria uma história orgânica, com temperos, café, gente. Queria palavras soletradas de verdade. E ele, generosamente, me entregou este sabor. 

Talal voltava de uma viagem ao Líbano quando foi interceptado por oficiais na Síria. Perguntaram apenas o seu primeiro nome e esta foi a chave que o levou para prisão, pois o confundiram com um opositor homônimo de Bashar Al-Assad. Talal foi preso injustamente e não haviam meios de desfazer o mal entendido. Quinze dias na cadeia secular, aquela onde aprisionam praticantes de pequenos furtos, ladrões de pouca importância. Depois, ele seria levado para a "prisão especial". Na Síria, este tipo de cadeia é o fim de qualquer estrada.

Quando soube de seu destino, Talal chamou Ghazal para conversar. Ele pediu para que ela o esquecesse, pois quem ali entrava jamais voltaria. "Esquece Talal!", esta frase ainda ecoa na minha cabeça, assim como ficou marcado o gesto que ele fez quando me contou esta parte. Eu coloquei meu café sobre a mesa e, indignada, me ajeitei na cadeira e perguntei como ele pôde dizer isso a ela. Sorrindo, me disse "O que você gostaria que eu dissesse a ela, Nathalia?". Me senti envergonhada, o que sei eu sobre este tipo de partida além do estrago que ela deva fazer na gente?

O tempo passava e Talal contava seus segundos vitoriosos porque até ali havia vencido a morte. Quando as portas se abriam, ele se preparava para partir. Viu muita gente morrer enquanto não era escolhido por ela. Ainda não consigo, por mais que ele tivesse tentado me explicar, o que é viver esperando pela morte. Naquele momento, olhei pra ele e perguntei sobre sua fé. E a cereja deste bolo oriental se fez presente: "Eu não estaria aqui sem ela."

O "Aqui" de Talal  é o Brasil. Em sua visão, se Deus permitiu esta jornada de confusões foi para torná-lo melhor. Três meses se passaram, Dezessete horas olhando para uma parede numa solitária, amigos sendo mortos, mas ele não deixava de estar pronto para o seu destino, seja ele qual fosse. E foi então que a porta que se abriu não foi a da morte, mas a da liberdade. Ele voltou e isso é um milagre. Naquele momento, começou a se organizar e pedir refúgio no Brasil, depois de alguns meses passados no Líbano. Teve de deixar sua terra, as memórias de guerra, a prisão, só não deixou lá sua esperança. Esta ele fez questão de trazer no coração. O engenheiro mecânico hoje ajuda Ghazal a preparar o gosto da Esperança Síria sob encomenda, enquanto aguarda sua licença para trabalhar em sua área no nosso país.

Enquanto isso, compartilho com vocês a infinidade de quitutes e uma receita que  vai além de ingredientes culinários. Se você quiser provar o sabor desta história, este é o caminho:

Talal Comida síria





Aos meus amigos Talal e Ghazal que me acolheram com tanto afeto e me acarinharam em sabores.
E em especial à minha pequena Yara, a melhor companhia para se cantar Gonzaguinha comendo chocolates.




21 de mar. de 2014

Belga Corner: Sotaque do coccix até o pescoço!

O ato de comer tem língua e linguagem, tem magnetismo, personalidade, sotaque que seduz. Não há definição mais precisa quando você se entrega a um sabor único, no qual é possível sentir não só amor e técnica inquestionável, mas um sotaque especial. Sotaque é para além de regionalismo. Na minha concepção de gosto, cada pessoa tem o seu, cada paladar encontra o tempero de um chef diferente, o sotaque dele.

Em busca de um lugar para se comer um docinho presença, encontrei o "Belga Corner". No badalado bairro do Itaim, o espaço pequeno que nada tem a ver com castelos também não fica em uma esquina. O ambiente é bem clean, com poucas mesas, mas logo de cara arrebatou meu coração. Em primeiro lugar, porque a trilha sonora era por conta de Marisa Monte. E depois, olha a fofura que eles prepararam para o especial do dia:





Empreitada de dois sócios belgas, o atendimento é super simpático, atencioso e preciso, mesmo ainda neste comecinho que chamamos de "fase de testes". Para abir os trabalhos, a opção óbvia ficou por conta das fritas belgas. Famosas pela textura e sabor, a porção fez jus à sua origem. Deliciosas e acompanhadas de maionese da casa foram a pedida perfeita. A única ressalva é a quantidade. Brasileiro se joga em batatas, né? Achei que vieram poucas para o preço de R$ 22.


Para beber, abri mão da minha favorita Stella para experimentar outro sabor da Bélgica. O garçon recomendou a opção abaixo que, além de ter um nome bonito e impronunciável, acompanhada de uma rodela de limão falou ao meu coração com palavras eternas. Uma belezura por R$13: