Eu poderia começar este texto falando sobre o filme se tratar da aventura inimaginável de dois homens numa fuga do campo de concentração e extermínio de Auschwitz para denunciarem todas as atrocidades vividas por lá. E esta seria apenas mais uma resenha sob a lente do óbvio.
O convite para assistir a este filme é o confronto com o inacreditável. Impossível imaginar que judeus eram obrigados a copular com vacas ou ao invés de água, os chuveiros derramassem gás ou toda e qualquer banalização não da Morte, mas da Vida.
O absurdo era tamanho que se tornava inacreditável. Imaginar seres humanos submetidos a tais desumanizações talvez fosse mais fácil do que crer que tudo isso acontecia à luz do dia, na claridade do mundo.
E tal façanha só foi possível porque uma mentira contada diversas vezes se torna verdade. Muito antes das Fake News, a propaganda nazista já funcionava ocultando genocidios e projetos de extermínio. E o que é mais tenebroso é que esta realidade, ainda que em outro contexto e antagonista de outros povos, não está tão distante de nós.
Até que ponto é difícil de acreditar que atrocidades estão sendo cometidas? Até que momento negar a realidade nos faz cúmplices dos horrores de uma guerra, de uma pandemia? O que é preciso fazer ou acontecer para que o horror seja acreditado e impedido?
O Protocolo de Auschwitz nos questiona a humanidade.
- Baseado em uma história real, o filme indicado da Eslováquia para concorrer ao Oscar 2021 de melhor filme estrangeiro pode ser adquirido para aluguel e compra no NOW, Looke, Vivo Play, Google Play, Microsoft, Apple TV e Sky Play.
Título Original: The Auschwitz Report Direção: Peter Bebjak Roteiro: Peter Bebjak, Tomás Bombík, Jozef Pastéka Baseado na obra de Alfred Wetzler (What Dante Did Not See) Elenco: Noel Czuczor, Peter Ondrejicka, John Hannah, Wojciech Mecwaldowski, Jacek Beler, Michal Rezný, Kamil Nozynski, Christoph Bach Distribuição: A2 Filmes
Para mim, filmes de terror são uma espécie de “guilty pleasure”: eles não têm a obrigação de ter os melhores roteiros ou uma produção impecável. A única obrigação deles é me entreter e, se possível, também dar alguns sustos durante a jornada. Portanto, posso afirmar que logo de cara “A Colheita” trouxe algo que eu não esperava: o filme deixou-me intrigado bem no início, tentando entender qual o rumo que tudo aquilo tomaria.
Um começo sem cerimônias
Vou evitar aqui ser muito descritivo para não dar spoiler, mas a primeira cena dita bem o que o filme vai ser: um fato violento que ocorre em uma comunidade Amish, mas a violência aqui é mais insinuada do que
representada. Não conseguimos entender muito bem em que época a cena se passa, não entendemos a motivação da personagem para cometer tal ato
e há ali algum grande mistério que perturba a cabeça do jovem Jacob – mistério que vamos descobrindo conforme esta linha temporal alterna-se com outra.
O jovem Jacob, interpretado por Alex Yucarba.
Uma questão familiar completa o enredo de “A Colheita”
Logo em seguida, passamos para um casal com um conflito bem atual (e bem clichê): casamento em crise, na terapia, decidem desconectar-se do mundo em busca de reacender a chama do casamento e conectar-se mais profundamente com os seus filhos. E onde eles vão buscar este refúgio? Isso mesmo, em uma casa que fica em um terreno vizinho a esta comunidade Amish. Pronto, temos aí as duas tramas que se encontram e cuja tensão entre elas é a espinha dorsal da história.
Quando a família chega ao seu destino de verão, Jake e Dinah (os pais) e Steven e Michaela (os filhos) se deparam com estranhos vizinhos. Aqui a sacada do filme é boa: por estarem situados próximos a uma comunidade Amish, eles estão o tempo todo cercados de pessoas que parecem viver “no passado”, sendo assim ficamos em um constante questionamento sempre que aparece algum personagem: será que se trata de um fantasma? Claro que, em algumas cenas, esta distinção acaba por ser intencionalmente óbvia.
Dinah, Jake, Steven e Michaela.
Pontos positivos e negativos de “A Colheita”
A história do filme é intrigante, a ambientação é incrível mas, na minha opinião, ainda faltou alguma profundidade. Por vezes a trama toma rumos interessantes, que no final das contas não são muito bem explorados. Conseguimos perceber claramente a intenção de um gênero que busca se reinventar, mas que ainda não encontrou um rumo. O seu ponto positivo acaba por também ser o seu ponto negativo: a sua temática não fica apenas mortes, fantasmas, bem e mal. É uma história sobre o perdão, sobre não deixar os nossos piores pensamentos tomarem conta.
Outra virtude de “A Colheita” que também se apresenta como defeito é a ausência de sustos. O filme não apela aos irritantes e repetitivos recursos baratos que temos visto nos últimos anos, mas também não nos faz pular do sofá em nenhum momento.
Avaliação final
Posso dizer que é uma trama capaz de prender a nossa atenção por 90% do tempo, sem precisar apelar demasiadamente para sangue e cenas insanas de ação. Enquanto longa-metragem de apresentação do diretor (Ivan Kraljevic) é interessante, com momentos bem gostosos de ver, como uma câmera a percorrer em sequência todos os cômodos da casa. Já os 10% finais acabam por perder um pouco ritmo, trazer algumas obviedades e metáforas bíblicas por vezes muito explícitas.
Em resumo, “A Colheita” é um filme bem dirigido e produzido, que consegue prender a sua atenção durante a maior parte do tempo, utilizando não só o sobrenatural mas como também os conflitos pessoais das personagens para criar tensão. Uma boa diversão para quem não espera um roteiro muito inteligente, e sem perigo de engasgar com a pipoca.
Título Original: The Harvesting Direção: Ivan Kraljevic Roteiro: Ben Everhart Elenco: Elena Nikitina Bick, Chris Conner, Jennifer Gareis, Greg Wood, Noah Headley, Accalia Quintana, Alex Yurcaba, Jack Buckley Distribuição: A2 Filmes
Quando Francis aparece na tela, ele afunda nas águas e sussurros emanam como prece para narrar seu renascimento. Eis o seu batismo, como aquele no rio em que o velho homem submerge para que o novo inicie uma trajetória cheia de possibilidades, renegando um passado para que o futuro seja feito de sua nova história.
Renascendo em Berlin, o único desejo de Francis é ser bom. Mas como consegui-lo em um mundo que insiste em ser mau? O seu primeiro obstáculo está posto e é magistralmente orquestrado por Reinhold que personifica todas as tentações e pecados que o sonho alemão representando o céu impõe para os anjos caídos em seu seio.
Dividido em cinco partes, Berlin Alexanderplatz é um ensaio de humanidade e do mundo. O diretor e roteirista Burhan Qurbani nos conduz a um indigesto espelho de nós mesmos e da sociedade que criamos baseada na força, no poder, na subjugação das nossas relações e dos lugares em que insistimos manter para sobrevivermos.
Em três horas de filme, morremos e renascemos com Francis. Desejamos que ele acorde para a desumanização que cremos que ele não saiba que sobrevive. E nos questionamos sobre quem é o Vilão, quem é o mocinho, quem é o certo ou o errado. Seria possível encontrar bondade e Amor num contexto de crime? E talvez chegamos à conclusão de que a vida não é dicotômica e entre os extremos existe um mar de nuances que nos colocam em diversos papéis. E é nestas águas que Francis navega.
Baseado na obra de Alfred Döblin, o filme dialoga conosco sobre ser refugiado num contexto geográfico e de Alma descortinando também o véu daquilo que consideramos Paraíso. Uma Alemanha subterrânea emerge de sua crueldade expondo suas contradições sociais, a desumanização daqueles que buscam novas oportunidades e o oportunismo dos que usam desta vulnerabilidade sistemática para sugarem estas vidas jogando com suas sobrevivências.
Eu poderia dizer que em muitos momentos Francis é a personificação de nossa luta universal humana, mas não seria de todo verdade. O fato de Francis ser refugiado e negro o coloca em situações em que muitos de nós não somos diretamente atraveassados. E ser quem é faz com que sua jornada seja invariavelmente mais difícil do que as nossas seriam. E neste ponto o filme é implacável e didático em nos mostrar como o racismo estrutural e as relações capitalistas se mantém e baseiam o mundo.
Um sucesso na 44a Mostra Internacional de Cinema, o filme Berlin Alexanderplatz, ainda que num contexto de particularidades históricas alemãs, é um espelho do mundo, e estreia hoje nos cinemas brasileiros.
Dez minutos antes de entrar na cabine de imprensa do filme Luta por Justiça, a convite da Warner Bros., eu lia a matéria do El Pais sobre o caso de racismo que o jogador Marega sofrera na Europa. E “Luta por Justiça” tem tudo a ver.
Nos Estados Unidos do final dos anos 80, o advogado negro recém-formado Bryan Stevenson – interpretado brilhantemente por Michael B. Jordan – troca o conforto das promessas da Faculdade de Direito de Harvard pelos casos esquecidos e injustiçados do Alabama. E é lá que ele conhece a história de Walter McMillian – incorporado pelo majestoso Jamie Foxx- preso injustamente e acusado por um assassinato que não cometeu.
A história do filme é real e baseada no livro escrito por Stevenson que também assina a produção executiva do longa. Com diálogos certeiros e carregados pelas dores e injustiças que o racismo estrutural causa, “Luta por Justiça” desnuda uma sociedade ainda atual pautada na voz e na legitimidade branca que se cala e se deleita em privilégios lutando para não serem perdidos. Batalha esta que custa a vida e a dignidade de milhares de pessoas negras pelo mundo todo.
Stevenson, ainda atuante em sua causa, só foi capaz de seguir adiante com seu propósito porque sabia exatamente o que é ser julgado por sua cor antes mesmo da decisão de um tribunal. Fato este que eu, como branca, jamais serei atravessada. Saí do cinema munida de esperança e de reflexões. Voltei ao campo de futebol em que Marega jogava, brilhava e era perseguido, xingado e humilhado. Naquele estádio e na vida, eu jogava ao lado dele. Mas isto não foi suficiente porque nunca o é.
Angela Davis que sentiu na pele o preconceito estadunidense, nos alertou que só não ser racista não seria suficiente. Deveríamos ser antirracistas. E para isso, se a torcida não é punida pelos seus preconceitos, chamamos a responsabilidade a campo. Se o juiz pune a vítima, questionamos as estruturas sociais e do futebol, e nos colocamos contra isso não aceitando. Se a saída mais certeira do momento for a escolha do seu parceiro negro em abandonar o campo, cabe respeitá-lo e dar as costas para uma partida carregada de injustiças. Nunca, nunca fazê-lo pensar que o que ele sente é errado. Até mesmo porque podemos opinar sobre, mas este não é e nunca será o lugar de fala de um branco. Se insistirmos na ideia, reproduziremos a lógica que nos ensinaram.
Filmes como este nos trazem à reflexão e ao questionamento sobre a reprodução de uma ordem estabelecida que privilegia brancos. Que bom que saímos dele pesarosos e desconfortáveis. Mas o quê fazer agora? Interromper estas práticas pessoais e nas suas relações sociais já é um começo. Ouvir e respeitar a história do outro também. Ler autores e autoras negras, conhecer histórias de resistências como estas e tantas outras que, por gerações, travam uma batalha para que pessoas continuem existindo.
Luta por Justiça entra no circuito nacional dia 20/02.
Desta vez não rolou cabine para o filme, mas li e ouvi tanto a respeito dele, que achei interessante comentar aqui sobre o tal filme sul coreano - Parasita. Sim, o que ganhou recentemente em 4 categorias no Oscar, sendo um deles, o principal, o de Melhor filme.
Como filha de coreanos, quis trazer um ponto de vista um pouco diferente das críticas que circulam por ai. Nunca fui a tradicional coreana e tão pouco a fã de Kpop (desculpem aí, rs), mas aprendi o idioma em casa e na escolinha quando pequena - o que me ajuda a consumir diversos conteúdos coreanos há um tempo. Dito isso, preciso explicar alguns pontos antes de entrar na resenha do filme (aguenta aí heheh).
Se você é amante de Kpop ou doramas (as séries coreanas) talvez o filme não te cause tanto impacto, por já entender um pouco do mercado coreano, mas que mesmo assim, te surpreenderá. Se você é amante de cinema, esse filme deve fazer parte da sua lista, assim como de outros diretores coreanos.
Em São Paulo, a comunidade coreana é relativamente grande, o que me permite acesso a algumas amostras internacionais nos centros culturais. E foi assim, que passei a ir em alguns dos festivais de filmes coreanos e entender um pouco do estilo não Hollywood. Os filmes mais “famosos” sempre foram os de terror e os de ação, pela intensidade e veracidade das cenas. Quando tem sangue, é muito sangue! Quanto tem luta, é muita luta! E a tensão é sempre grande que mal dá para respirar.
Se são tão bons assim, por quê então os filmes coreanos nunca foram muito comentados ou com tiveram uma distribuição nos cinemas nacionais como está sendo agora com o ganhador do Oscar?
O Parasita retrata a diferença das classes sociais de duas famílias, e como a vontade de melhorar de vida a qualquer custo pode ter um alto preço. Ki-woon, o filho mais velho da família Kim, que vive na pobreza em um apartamento subterrâneo, vê uma oportunidade de trabalhar como professor particular para a filha de uma família rica, os Park. E é ai que a trama começa, vendo a chance de mudar de vida, ele elabora um plano para infiltrar toda sua família dentro da casa dos Park. Um filme tenso e leve ao mesmo tempo, que traz uma narrativa elaborada e surpreendente.
Mas, qual a novidade aqui? Por que tantos prêmios e burburinhos?
A cultura coreana é ainda bastante conservadora e tradicional, principalmente nos filmes românticos! Para vocês terem uma ideia, não abordam cenas de sexo e até cenas de beijos mais quentes são raros. No entanto, a obra do diretor Bong Joon Ho é um mix do liberalismo ocidental com a tradição dos filmes de ação/thriller já conhecidos pelos coreanos. Uma mistura ousada pro mercado interno, mas certeira para o mercado internacional, ao meu ver. Ele consegue conquistar o público que ama um suspense/thrilled, os que gostam de um leve romance, e com seu enredo cheio de reviravoltas fica impossível não perder o fôlego.
Um outro filme bem parecido, que segue essa linha é o A Criada (The Handmaiden, em inglês) do diretor Park Chan Wook (o mesmo de Oldboy) que na sua estréia teve ótimas críticas e venceu o troféu Vulcão no Festival de Cannes de 2016. A trama acontece nos anos 30, época que o país foi ocupado pelo Japão, e traz temas como homossexualidade, opressão, e jogos de poder. Assim como Parasita, é um filme intenso que quebra muitas barreiras e é cheio de reviravoltas e muitas surpresas durante o filme.
Dica especial para quem chegou até aqui: se você for de São Paulo ou estiver pela cidade, pode encontrar o longa em exibição gratuita no Centro Cultural de São Paulo (CCSP) onde está rolando uma mostra de filmes coreanos do dia 11/02 até o dia 23/02. Vale a pena assistir outros filmes que estão em cartaz também!
Dica 2: tem bons filmes coreanos no Netflix, recomendo esses dois:
- Okja do mesmo diretor de Parasita, Bong Joon Ho, onde retrata a amizade de uma jovem com uma porca gigante, geneticamente modificada por uma poderosa empresa alimentícia.
- Drug King de Woo Min-ho, que tem como ator principal o mesmo do Parasita. É um filme um pouco diferente, mas baseado em fatos reais, e seguindo a onda das produções como Narcos e El chapo, conta a história de um líder do narcotráfico nos anos 70.
Me contem o que acharam dos filmes e se gostariam de mais dicas de filmes coreanos por aqui.
Do renomado cineasta Feras Fayyad - duas vezes indicado ao Oscar pelo filme “Last Men in Aleppo” - chegou no dia 03 de fevereiro à programação da National Geographic (com reprise até o dia 08/02), The Cave, um relato comovente e cheio de coragem, resiliência e solidariedade. O filme é considerado um dos melhores do ano pelos veículos New York Times, Los Angeles Times, National Public Radio e The Washington Post.
Fomos convidadas ao escritório da Fox para conferir a première do documentário “The Cave” que concorre na categoria do Oscar 2020. É impossível não sair impactada desta história. Primeiro porque ela é real e contada pelo lugar de fala daqueles que são as maiores vítimas de qualquer guerra: o povo. Depois, porque existe uma mulher como Amani. Alguém capaz de se doar pra pessoas que nem mesmo conhece porque sabe que este é o certo a se fazer.
Naquele hospital subterrâneo nas mediações de Damasco, o médico ligava o celular no YouTube e colocava música clássica enquanto operava o paciente. O Hospital caverna dirigido pela dra. Amani que, aos 30 anos - subjugada todos os dias de sua vida e por sua cultura por ser mulher - escolheu estar na zona de conflito cuidando de crianças sírias. Amani que se guia pelo som dos caças russos, que pragueja contra Ala e Bashar, que resiste bravamente contra o governo e os aliados nesta luta por salvar vidas.
Esta mulher que emprega outras mulheres para lhes saciar a fome, que chora por ter comida em meio à miséria, que abandonou tudo porque acredita que viver é fazer algo importante.
Esse é mais um dos dos documentários que se tornam obrigatórios de se assistir na vida. O mundo é um lugar melhor só porque nele existe a Dra. Amani. Confira 10 fatos sobre o documentário The Cave que são de arrepiar!
1. ADMIRAÇÃO DO DIRETOR POR MULHERES VALENTES, DESDE CRIANÇA
O diretor sírio Feras Fayyad cresceu cercado por mulheres: sua mãe, sete irmãs e quatro tias. Por conta disso, ele sempre se incomodou com situação das mulheres na sociedade síria, onde são consideradas “sexo frágil”, nascidas para serem esposas e mães, e inferiores aos homens.
2. A EXPERIÊNCIA DE TORTURA
Em 2011, o governo de Bashar al-Assad começou a tomar medidas severas para interromper o movimento pró-democrático. Fayyad foi preso, seu filme sobre um poeta sírio exilado e sua luta pela liberdade de expressão o colocaram na mira do regime. Ele foi preso e torturado por quinze meses. Lá ele testemunhou crueldade e misoginia. “Como um homem que cresceu em uma família de mulheres, isso foi muito forte para mim. Senti que um dia tive que usar minha voz como cineasta para denunciar tudo isso.”
3. O DESCOBRIMENTO DE AMANI BALLOUR
Em agosto de 2013, o governo de Al-Assad realizou um ataque de armas químicas em Guta. Mísseis foram lançados às 2:30 da manhã, o que asfixiou a população enquanto dormia. Feras Fayyad ficou chocado ao ver imagens de dois médicos que trabalharam rápida e decisivamente. Um deles era uma jovem pediatra, Dra. Amani Ballour.
4. AMANI, UMA SÍNTESE DAS MULHERES DA VIDA DE FAYYAD
“Eu podia imaginar minha mãe, minhas irmãs e as mulheres que haviam sido espancadas durante minha prisão em todas as histórias que foram contadas por Dra. Amani. Ela não apenas cumpria seu dever como médica: ela estava desafiando os estereótipos e preconceitos que a sociedade síria tem sobre as mulheres”, lembra Fayyad.
5. A CAVERNA
Amani foi nomeada diretora do hospital subterrâneo, em Guta, nomeado "A Caverna". Os pisos subterrâneos faziam parte de um hospital em construção que permaneceu inacabado e vazio desde o início das guerras. A área foi dividida em salas: uma clínica pediátrica, uma clínica para mulheres, uma sala de operações, uma sala de recuperação e um espaço de recepção de emergência.
6. UM FILME DIRIGIDO À DISTÂNCIA
Incapaz de ir a Guta devido ao cerco, o diretor teve que reunir uma equipe de filmagem para trabalhar dentro do hospital subterrâneo. Sua busca o levou a três talentosos colaboradores: Muhammed Khair Al Shami, Ammar Sulaiman e Mohammed Eyad, que fizeram um mapa detalhado do hospital para que ele tivesse uma ideia concreta da distribuição, das várias salas e túneis. Eles se comunicavam online duas vezes por dia e enviavam as imagens em pequenos arquivos.
7. O DESAFIO DE NÃO PERTURBAR
Fayyad deu-lhes instruções, passo a passo, sobre as técnicas necessárias durante as filmagens para captar a sensação de intimidade que procurava. "Eles precisavam saber como filmar de maneira sensível, próxima dos personagens, mas sem perturbá-los". Fayyad produziu o documentário seguindo o estilo do cinéma verité, através apenas dos personagens, sem narração ou entrevistas diretas à câmera. O diretor queria que sua equipe seguisse os personagens por longos períodos de tempo e os filmasse trabalhando e também em suas vidas pessoais: comendo, se comunicando com a família, conversando entre si.
8. FALTA DE LUZ
Os cinegrafistas enfrentaram inúmeras dificuldades técnicas, principalmente devido à impossibilidade de acessar equipamentos sofisticados de alta qualidade e adequados para filmar pequenos espaços escuros. Quando havia uma queda de energia, um dos operadores de câmera acendia a lanterna do celular. Além disso, os personagens raramente iam à superfície, para não correr risco de morte por um dos frequentes ataques aéreos dos caças russos.
9. ATENÇÃO ÀS MENINAS
Dra. Amani age de acordo com suas convicções e com atenção especial às meninas, as quais o futuro ainda é uma questão indefinida. “Em nossa sociedade, espera-se que as mulheres se casem quando são adolescentes. A maioria dos homens e pais diz: ‘Você se casará e irá para a casa de seu marido’. Por isso, é preciso falar com elas sobre isso”.
10. A ETERNA ESPERANÇA POR JUSTIÇA
Quando perguntado sobre suas expectativas em relação à caverna, a Dra. Amani foi, como sempre, direta: “Quero que este filme signifique um passo no caminho da justiça, talvez possamos fazê-la um dia. Quero contar à geração mais jovem da Síria, os filhos dos sírios, a verdade sobre o que aconteceu aqui. E, especialmente, quero que as mulheres do meu país saibam que são fortes, que podem desafiar restrições, que podem fazer o que querem. Tentei dizer a todas as mulheres que vi, o tempo todo: ‘Não preste atenção à sociedade, ao que as pessoas dizem sobre você. Você tem que fazer o que quiser. Você tem que ter fé em si mesmo’. Algum dia, as coisas vão mudar! A sociedade vai mudar."
Essa semana, a convite da Warner Bros. fui conferir uma das estréias mais aguardadas do ano, Godzilla II: Rei dos Monstros! O filme que sucede os acontecimentos de "Godzilla" - 2014 e parte do universo "Kong: A Ilha da Caveira" - 2017, detalha as pesquisas e monitoramento das criaturas gigantes (os kaijus) da agência Monarch, que mantem bases espalhadas pelo mundo. No total são 17 criaturas monitoradas, porém apenas 4 deles (diga-se de passagem são as mais conhecidas do universo da Toho) fazem parte desta franquia, o que nos indica que teremos mais para filmes futuros.
As criaturas gigantes, nomeados como Titãs, são as estrelas da vez, onde ao longo do filme buscam a supremacia, trazendo assim, um ritmo de ação constante ao longa-metragem.
No enredo, a família de Emma Russell (Vera Farmiga), seu marido Mark (Kyle Chandler) e sua filha Madison (Millie Bobby Brown) desfeita após os eventos do primeiro filme, tentam superar o trauma causado por Godzilla no passado. O reencontro do casal, dá início a trama que tenta mostrar como é possível encaixar e interagir com essas criaturas no nosso mundo, de forma a evitar a extinção humana.
Emma, que trabalha para a agência Monarch, desenvolve um equipamento sonoro capaz de controlar os Titãs e é através dele, que antes adormecidos, se despertam para o grande combate.
Um filme de ação e ficção-científica dirigido por Michael Dougherty, e roteiro escrito por Dougherty e Zach Shields com base na criatura de mesmo nome, do estúdio japonês Toho.
A franquia americana tenta trazer essas criaturas em um contexto moderno, graças ao alto investimento, e ao mesmo tempo, manter a tradição do estúdio Toho. Com isso, podemos assistir batalhas com efeitos especiais incríveis e com riqueza de detalhes dos Kaijus.
São 2 horas de muita ação e cenas de tirar o fôlego. Posso afirmar, com toda certeza, que a sonoplastia e o efeitos visuais são o prato cheio desse longa.
Dica: não vá embora correndo, têm cenas pós-créditos!
Godzilla II: Rei dos Monstros" chega aos cinemas de todo o Brasil, no dia 30 de maio de 2019. E se você já conferiu, me conta aí, o que achou do filme e do que espera para o Godzilla III, vou adorar saber.
O primeiro filme de 2019 em que marcamos presença na Cabine de Imprensa da A2 Filmes tem a ver com muitas primeiras vezes. Pelo trailer e convite, Primeiro Ano é apresentado como uma história de amizade e de concessões por ela. Mas é preciso ter tido segundas e terceiras vezes para entender a sutileza que o longa de Thomas Lilti nos traz.
A história tem como contexto a dificuldade de um estudante de medicina sobreviver ao Primeiro ano da Faculdade na França. E é neste ponto em que Benjamin e Antoine se conhecem. O primeiro chegando ao mundo da universidade pela primeira vez, ainda não entendendo muita coisa, trocando os livros de Biologia pelo vídeo game e a pontualidade pelo melhor croissant de Paris. Já o outro, repetindo todo o processo, planejando um cronograma insano de estudos e pesquisas para conseguir se tornar médico.
Nos encontros e desencontros de ser quem são, os dois se tornam grandes amigos. O Privilegiado Benjamin acaba abrigando Antoine em seu apartamento no centro da cidade fazendo com que ele ganhe horas de estudo diminuindo o trajeto de volta para a periferia. E neste processo, é Benjamin quem nasce.
Num primeiro momento, acreditamos que é tudo sobre a obstinação de Antoine, a determinação em realizar o seu sonho que é de vocação e amor. Mas pra mim, o filme é sobre Benjamin e toda a imersão que ele passa a ter no processo desta amizade.
Perceber-se inteligente e leve, empático e privilegiado. Benjamin se descobre, sofre ao realizar que está cumprindo um papel que planejaram para ele, mas decide ser autor da própria história. E é ele quem impõe limites à sua disposição para com Antoine e também a liberdade que através do outro decide seguir.
Primeiro Ano entra em cartaz nesta semana no circuito paulistano. E é uma dica bonita de se ver. =)
Filme: Primeiro Ano
França | 2018 | 92 min. | Drama | 12 anos
Título Original: Première Année
Direção: Thomas LiltiRoteiro: Thomas LiltiElenco: Vincent Lacoste, William Lebghil, Michel LerousseauDistribuição: A2 Filmes
Acaba de estrear Marvin aqui no Brasil e à convite da A2 Filmes fomos conferir em primeira mão. O filme francês, escrito e dirigido por Anne Fontaine, tem como personagem central um jovem homossexual nascido em uma pequena aldeia na França, interpretado por Finnegan Oldfield. Os grandes conflitos do filme giram em torno da luta do protagonista contra uma vida de bullying e rejeição, mas também a auto aceitação do protagonista.
O filme transita entre presente e passado e vai contando sua infância em uma sociedade totalmente retrógrada e como o teatro conseguiu ser mais que uma fuga pra ele: uma oportunidade de se reinventar. A história em si poderia ser clichê, porém, a autora e diretora, conseguiu trazer uma complexidade aos personagens que traz reflexões muito maiores ao filme do que o plot propõe. Além das duas camadas de conflito (Marvin x Mundo / Marvin x si mesmo), no que diz respeito à família do protagonista, também conseguimos enxergar alguns conflitos bem atuais.
Em tempos de debate polarizado, o filme consegue falar sobre homofobia de forma séria e levantando a bandeira, mas sem crucificar a família que rejeita o personagem. Conseguimos entender o contexto que os faz serem quem são, e também uma ou outra carga de arrependimento e tentativas de ser diferentes ao longo do filme. Considero a abordagem interessante porque seria muito fácil explorar o tema de forma maniqueísta. Mas é justamente essa sensibilidade e coragem da autora de trazer complexidade aos personagens que faz com que a trama fuja do clichê.
A gente tem curtido muito todos os convites para ir ao cinema que a A2 filmes tem nos feito. Desta vez, eu, Nath, fui assistir ao Gaughin - Viagem ao Taiti e voltei muito pensativa. Um filme que fala de um artista por si só já é contemplativo e inspirador, mas este recorte na vida de Gaughin nos tem muito a dizer.
Eugene Gaughin transitou por muitas escolas artísticas, foi referência de seu tempo entre os intelectuais e colegas e, algo que me tocou muito nele foi a forma como se definia: uma criança e um selvagem. Para mim, alma artística também é isso. E é sobre que eu gostaria de falar.
No século XIX, Gaughin se aventurou pelo Taiti no desejo do desconhecido e da busca por inspiração. Juntou umas poucas economias e viajou só, abandonado por sua família. Alguns anos para que ele experimentasse a natureza, o tempo passando de outro modo, o amor e a miséria. Em alguns momentos, passou fome e ficou sem telas, o que o fez montar suas próprias bases para pintar com madeiras e cobertores.